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quinta-feira, 16 de julho de 2015

Sobre fantasmas e professores!

Rafael Cabral Cruz

"É muito mais difícil matar um fantasma do que uma realidade" (Virgínia Woolf). Assim a autora descreve as dificuldades de lutar contra o "Anjo do Lar", estereótipo de papel da mulher vitoriana introjetado no seu inconsciente pela cultura dominante. Poderia perguntar, neste contexto, quais seriam os fantasmas que assombram nossa capacidade de construir um mundo melhor, de construir uma universidade que realmente construa cidadania?
O primeiro fantasma é o senso comum. Este senso comum que coloca que somos servidores públicos que devem seguir as ordens superiores, na cadeia de comando que vai do MEC até a nossa sala de aula ou nosso laboratório. Este senso comum que, repleto de reuniões, cria uma sensação de democracia, de participação, mas que na prática, somente existe para confirmar e justificar o senso comum, cuja função, como de todos os aparelhos idológicos do estado, é reproduzir a cultura dominante neoliberal. As questões mais importantes são decididas fora do âmbito das reuniões que consomem boa parte das horas disponíveis dos docentes. Deste modo, vai se criando uma cultura de usar destes instrumentos - as instâncias colegiadas e dos processos eleitorais, que deveriam ser fóruns democráticos -, como mero local de tomada de decisões. Como as decisões fundamentais não são tomadas no contexto da autonomia, estas tomadas de decisões acabam por ser o local onde as relações de solidariedade entre indivíduos, baseada na troca de favores e proteção mútua, denominada pelo antropólogo Eric Wolf como amizade de panelinha, acabam por estabelecer um jogo político de cartas marcadas. É um jogo político marcado pela disputa pelos recursos escassos institucionais, pelas migalhas que sobram do banquete efetuado pelos verdadeiros tomadores de decisão, que sentam em Brasília com os lobbies políticos e financeiros e que decidem quanto será concedido para cada instituição. Como estes grupos atuam como meros instrumentos de sobrevivência em meio à escassez, não se constroem como instrumentos de transformação da realidade: pelo contrário, a reforçam e a reproduzem, defendendo os seus critérios produtivistas nas instâncias pertinentes, especialmente quando estes fortalecem suas posições na disputa pelos mesmos recursos escassos.
O segundo fantasma, que é consequência do primeiro, é o fantasma da falta de transparência. Este é o pior fantasma, porque ele se manifesta de uma forma que solapa as bases da construção de qualquer democracia: a ausência de debate. Como as assembleias são vistas como mero local de disputas de panelinhas e como instâncias de tomada de decisões, grande parte dos docentes, que deveriam ser instrumentos críticos da sociedade, exemplos para os alunos de consciência crítica e, portanto, seres humanos participando do jogo democrático, acabam comparecendo nas reuniões somente para defenderem seus interesses: ou seja, vão, votam de acordo com o seu grupo de interesse e não se manifestam. Acabam se transformando em fantasmas dentro do jogo político. Sim, porque não se expõem. Não defendem publicamente suas ideias, seus argumentos. É perigoso manifestar publicamente suas ideias, pois pode haver julgamento e exclusão do grupo que se define pelas alianças das amizades de panelinha. Basta comparecer, votar e demonstrar para os líderes do grupo sua fidelidade. Assim, o fantasma vota em grupo, mas o grupo opta por não participar do embate democrático. É pressuposto da democracia que as pessoas possam optar, entre as alternativas, de forma racional, ou seja, através do confronto de ideias e argumentos. Um democrata verdadeiro defende suas posições como deve fazer um verdadeiro cientista: sempre sabendo que sua verdade é relativa e que pode ser mudada por argumentos consistentes, sólidos, bem fundamentados. Portanto, um democrata é um ser mutante, capaz de ser convencido! No entanto, quando os grupos não expõem seus argumentos e não defendem suas ideias, a racionalidade da democracia, baseada no embate dos argumentos, no pressuposto de que as pessoas podem mudar de ideia quando avaliam os argumentos dos outros, deixa de existir, e no local desta racionalidade se coloca um espírito de corpo do grupo, que assume vitórias ou derrotas em votações de modo passional e subjetivo. Solapa-se o fundamento da democracia, pois esta não se manifesta unicamente na decisão tomada, na votação, mas acima de tudo, no processo de embate entre as ideias, na capacidade de convencimento e na admissão da mudança de posição diante de argumentos mais fortes. Se o processo não é democrático, a eleição também não é. Este fantasma, que reproduz a cultura dominante mais que qualquer outro, é o pior para ser matado, no sentido de Virginia Wolf. Ele, não apresentando seus argumentos, não se expõem, não oferece oportunidade para o debate, não almeja convencer seu oponente no campo dos argumentos, pois este é visto como um inimigo a ser derrotado, não como um colega no mesmo campo de construção da democracia na universidade. O seu único e verdadeiro compromisso não é com os objetivos de construir uma educação de qualidade, gratuita, que desenvolve um perfil de egressos baseado na construção da cidadania, da democracia e do desenvolvimento sustentável da nossa região, como consta nos nossos documentos que estabelecem, no papel, o que desejamos, mas com os objetivos de seu grupo de interesses. E assim, o exemplo que dão para os estudantes é de passividade frente à realidade: para que lutar por algo melhor? Melhor seria se juntarem para defenderem seus interesses e jogar de acordo com as regras estabelecidas pelos senhores do mundo! A lição que se dá para os estudantes é de como se constroem lobbies para defenderem seus interesses. Deste modo, este fantasma vai destruindo as bases que deveriam ser construídas pelo debate franco e respeitoso, bases estas que permitiriam que a universidade permitisse o florescimento de uma consciência crítica que permita, de fato, a construção de uma cultura democrática na instituição, que se oponha a esta cultura autocrática, reproduzida pelos grupos de interesses baseados em  amizades de panelinha. Este fantasma é a cultura dominante neoliberal introjetada no inconsciente dos professores!
Este fantasma se coloca entre a universidade que temos e a que queremos: uma universidade em que, independentemente de posicionamentos, todos nos respeitemos como colegas que lutam pela mesma finalidade, onde andemos pelos corredores e cruzemos não por fantasmas, mas por colegas que conhecemos, transparentes, pessoas que respeitamos porque, através do debate e da argumentação, podem contribuir para nosso crescimento e nossa mudança. Não fantasmas, mas colegas!

terça-feira, 17 de julho de 2012

Sobre o neogolpismo na América Latina!

O golpe no Paraguai serve aos Estados Unidos

Postado por Juremir em 14 de julho de 2012 - Política

Estados Unidos, Venezuela e Paraguai

Por Samuel Pinheiro Guimarães

A política externa norte-americana na América do Sul sofreu as consequências totalmente inesperadas da pressa dos neogolpistas paraguaios em assumir o poder, com tamanha voracidade que não podiam aguardar até abril de 2013, quando serão realizadas as eleições, e agora articula todos os seus aliados para fazer reverter a decisão de ingresso da Venezuela. A questão do Paraguai é a questão da Venezuela, da disputa por influência econômica e política na América do Sul.


A mídia conservadora partiu no socorro dos neogolpistas:
1. Não há como entender as peripécias da política sul-americana sem levar em conta a política dos Estados Unidos para a América do Sul. Os Estados Unidos ainda são o principal ator político na América do Sul e pela descrição de seus objetivos devemos começar.
2. Na América do Sul, o objetivo estratégico central dos Estados Unidos, que apesar do seu enfraquecimento continuam sendo a maior potência política, militar, econômica e cultural do mundo, é incorporar todos os países da região à sua economia. Esta incorporação econômica leva, necessariamente, a um alinhamento político dos países mais fracos com os Estados Unidos nas negociações e nas crises internacionais.
3. O instrumento tático norte-americano para atingir este objetivo consiste em promover a adoção legal, pelos países da América do Sul, de normas de liberalização a mais ampla do comércio, das finanças e investimentos, dos serviços e de “proteção” à propriedade intelectual através da negociação de acordos em nível regional e bilateral.
4. Este é um objetivo estratégico histórico e permanente. Uma de suas primeiras manifestações ocorreu em 1889 na 1ª Conferência Internacional Americana, que se realizou em Washington, quando os EUA, já então a primeira potência industrial do mundo, propuseram a negociação de um acordo de livre comércio nas Américas e a adoção, por todos os países da região, de uma mesma moeda, o dólar.
5. Outros momentos desta estratégia foram o acordo de livre comércio EUA-Canadá; o NAFTA (Área de Livre Comércio da América do Norte, incluindo, além do Canadá, o México); a proposta de criação de uma Área de Livre Comércio das Américas – ALCA e, finalmente, os acordos bilaterais com o Chile, Peru, Colômbia e com os países da América Central.
6. Neste contexto hemisférico, o principal objetivo norte-americano é incorporar o Brasil e a Argentina, que são as duas principais economias industriais da América do Sul, a este grande“conjunto” de áreas de livre comércio bilaterais, onde as regras relativas ao movimento de capitais, aos investimentos estrangeiros, aos serviços, às compras governamentais, à propriedade intelectual, à defesa comercial, às relações entre investidores estrangeiros e Estados seriam não somente as mesmas como permitiriam a plena liberdade de ação para as megaempresas multinacionais e reduziriam ao mínimo a capacidade dos Estados nacionais para promover o desenvolvimento, ainda que capitalista, de suas sociedades e de proteger e desenvolver suas empresas (e capitais nacionais) e sua força de trabalho.
7. A existência do Mercosul, cuja premissa é a preferência em seus mercados às empresas (nacionais ou estrangeiras) instaladas nos territórios da Argentina, do Brasil, do Paraguai e do Uruguai em relação às empresas que se encontram fora desse território e que procura se expandir na tentativa de construir uma área econômica comum, é incompatível com objetivo norte-americano de liberalização geral do comércio de bens, de serviços, de capitais etc que beneficia as suas megaempresas, naturalmente muitíssimo mais poderosas do que as empresas sul-americanas.
8. De outro lado, um objetivo (político e econômico) vital para os Estados Unidos é assegurar o suprimento de energia para sua economia, pois importam 11 milhões de barris diários de petróleo sendo que 20% provêm do Golfo Pérsico, área de extraordinária instabilidade, turbulência e conflito.
9. As empresas americanas foram responsáveis pelo desenvolvimento do setor petrolífero na Venezuela a partir da década de 1920. De um lado, a Venezuela tradicionalmente fornecia petróleo aos Estados Unidos e, de outro lado, importava os equipamentos para a indústria de petróleo e os bens de consumo para sua população, inclusive alimentos.
10. Com a eleição de Hugo Chávez, em 1998, suas decisões de reorientar a política externa (econômica e política) da Venezuela em direção à América do Sul (i.e. principal, mas não exclusivamente ao Brasil), assim como de construir a infraestrutura e diversificar a economia agrícola e industrial do país viriam a romper a profunda dependência da Venezuela em relação aos Estados Unidos.
11. Esta decisão venezuelana, que atingiu frontalmente o objetivo estratégico da política exterior americana de garantir o acesso a fontes de energia, próximas e seguras, se tornou ainda mais importante no momento em que a Venezuela passou a ser o maior país do mundo em reservas de petróleo e em que a situação do Oriente Próximo é cada vez mais volátil.
12. Desde então desencadeou-se uma campanha mundial e regional de mídia contra o Presidente Chávez e a Venezuela, procurando demonizá-lo e caracterizá-lo como ditador, autoritário, inimigo da liberdade de imprensa, populista, demagogo etc. A Venezuela, segundo a mídia, não seria uma democracia e para isto criaram uma “teoria” segundo a qual ainda que um presidente tenha sido eleito democraticamente, ele, ao não “governar democraticamente”, seria um ditador e, portanto, poderia ser derrubado. Aliás, o golpe já havia sido tentado em 2002 e os primeiros lideres a reconhecer o “governo” que emergiu desse golpe na Venezuela foram George Walker Bush e José María Aznar.
13. À medida que o Presidente Chávez começou a diversificar suas exportações de petróleo, notadamente para a China, substituiu a Rússia no suprimento energético de Cuba e passou a apoiar governos progressistas eleitos democraticamente, como os da Bolívia e do Equador, empenhados em enfrentar as oligarquias da riqueza e do poder, os ataques redobraram orquestrados em toda a mídia da região (e do mundo).
14. Isto apesar de não haver dúvida sobre a legitimidade democrática do Presidente Chávez que, desde 1998, disputou doze eleições, que foram todas consideradas livres e legítimas por observadores internacionais, inclusive o Centro Carter, a ONU e a OEA.
15. Em 2001, a Venezuela apresentou, pela primeira vez, sua candidatura ao Mercosul. Em 2006, após o término das negociações técnicas, o Protocolo de adesão da Venezuela foi assinado pelos Presidentes Chávez, Lula, Kirchner, Tabaré e Nicanor Duarte, do Paraguai, membro do Partido Colorado. Começou então o processo de aprovação do ingresso da Venezuela pelos Congressos dos quatro países, sob cerrada campanha da imprensa conservadora, agora preocupada com o “futuro” do Mercosul que, sob a influência de Chávez, poderia, segundo ela, “prejudicar” as negociações internacionais do bloco etc. Aquela mesma imprensa que rotineiramente criticava o Mercosul e que advogava a celebração de acordos de livre comércio com os Estados Unidos, com a União Européia etc, se possível até de forma bilateral, e que considerava a existência do Mercosul um entrave à plena inserção dos países do bloco na economia mundial, passou a se preocupar com a “sobrevivência” do bloco.
16. Aprovado pelos Congressos da Argentina, do Brasil, do Uruguai e da Venezuela, o ingresso da Venezuela passou a depender da aprovação do Senado paraguaio, dominado pelos partidos conservadores representantes das oligarquias rurais e do “comércio informal”, que passou a exercer um poder de veto, influenciado em parte pela sua oposição permanente ao Presidente Fernando Lugo, contra quem tentou 23 processos de “impeachment” desde a sua posse em 2008.
17. O ingresso da Venezuela no Mercosul teria quatro consequências: dificultar a “remoção” do Presidente Chávez através de um golpe de Estado; impedir a eventual reincorporação da Venezuela e de seu enorme potencial econômico e energético à economia americana; fortalecer o Mercosul e torná-lo ainda mais atraente à adesão dos demais países da América do Sul; dificultar o projeto americano permanente de criação de uma área de livre comércio na América Latina, agora pela eventual “fusão” dos acordos bilaterais de comércio, de que o acordo da Aliança do Pacifico é um exemplo.
18. Assim, a recusa do Senado paraguaio em aprovar o ingresso da Venezuela no Mercosul tornou-se questão estratégica fundamental para a política norte americana na América do Sul.
19. Os líderes políticos do Partido Colorado, que esteve no poder no Paraguai durante sessenta anos, até a eleição de Lugo, e os do Partido Liberal, que participava do governo Lugo, certamente avaliaram que as sanções contra o Paraguai em decorrência do impedimento de Lugo, seriam principalmente políticas, e não econômicas, limitando-se a não poder o Paraguai participar de reuniões de Presidentes e de Ministros do bloco.
Feita esta avaliação, desfecharam o golpe. Primeiro, o Partido Liberal deixou o governo e aliou-se aos Colorados e à União Nacional dos Cidadãos Éticos – UNACE e aprovaram, a toque de caixa, em uma sessão, uma resolução que consagrou um rito super-sumário de “impeachment”.
Assim, ignoraram o Artigo 17 da Constituição paraguaia que determina que “no processo penal, ou em qualquer outro do qual possa derivar pena ou sanção, toda pessoa tem direito a dispor das cópias, meios e prazos indispensáveis para apresentação de sua defesa, e a poder oferecer, praticar, controlar e impugnar provas”, e o artigo 16 que afirma que o direito de defesa das pessoas é inviolável.
20. Em 2003, o processo de impedimento contra o Presidente Macchi, que não foi aprovado, levou cerca de 3 meses enquanto o processo contra Fernando Lugo foi iniciado e encerrado em cerca de 36 horas. O pedido de revisão de constitucionalidade apresentado pelo Presidente Lugo junto à Corte Suprema de Justiça do Paraguai sequer foi examinado, tendo sido rejeitado in limine.
21. O processo de impedimento do Presidente Fernando Lugo foi considerado golpe por todos os Estados da América do Sul e de acordo com o Compromisso Democrático do Mercosul o Paraguai foi suspenso da Unasur e do Mercosul, sem que os neogolpistas manifestassem qualquer consideração pelas gestões dos Chanceleres da UNASUR, que receberam, aliás, com arrogância.
22. Em consequência da suspensão paraguaia, foi possível e legal para os governos da Argentina, do Brasil e do Uruguai aprovarem o ingresso da Venezuela no Mercosul a partir de 31 de julho próximo. Acontecimento que nem os neogolpistas nem seus admiradores mais fervorosos – EUA, Espanha, Vaticano, Alemanha, os primeiros a reconhecer o governo ilegal de Franco – parecem ter previsto.
23. Diante desta evolução inesperada, toda a imprensa conservadora dos três países, e a do Paraguai, e os líderes e partidos conservadores da região, partiram em socorro dos neogolpistas com toda sorte de argumentos, proclamando a ilegalidade da suspensão do Paraguai (e, portanto, afirmando a legalidade do golpe) e a inclusão da Venezuela, já que a suspensão do Paraguai teria sido ilegal.
24. Agora, o Paraguai procura obter uma decisão do Tribunal Permanente de Revisão do Mercosul sobre a legalidade de sua suspensão do Mercosul enquanto, no Brasil, o líder do PSDB anuncia que recorrerá à justiça brasileira sobre a legalidade da suspensão do Paraguai e do ingresso da Venezuela.
25. A política externa norte-americana na América do Sul sofreu as consequências totalmente inesperadas da pressa dos neogolpistas paraguaios em assumir o poder, com tamanha voracidade que não podiam aguardar até abril de 2013, quando serão realizadas as eleições, e agora articula todos os seus aliados para fazer reverter a decisão de ingresso da Venezuela.
26. Na realidade, a questão do Paraguai é a questão da Venezuela, da disputa por influência econômica e política na América do Sul e de seu futuro como região soberana e desenvolvida.
*Samuel Pinheiro Guimarães é diplomata brasileiro e professor do Instituto Rio Branco

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012


                              A DEPENDÊNCIA DO BRASIL
Jefferson Marçal da Rocha


O Brasil, assim como os demais países da América Latina e em grande parte da Ásia e da África surgiu (na falta de outro termo) na História do ocidente, quando na expansão do capitalismo mercantil europeu no final do século XV. Depois de reveladas as verdadeiras dimensões do mundo os principais países da Europa em especial a Inglaterra, França, Portugal e Espanha começam a assumir-lhe o controle.
 A obtenção de riquezas e lucros para as cortes e a burguesia nascente foi o interesse principal que impulsionou as grandes navegações portuguesas e espanholas. Também, há de salientar, que estes dois países estavam melhores localizadas geograficamente do que os demais, e dispunham de maiores recursos para estas investidas. Em decorrência desta política todas as terras descobertas e seus recursos naturais foram articulados em função das necessidades e demandas dos países europeus, o exemplo disso foi à assinatura de inúmeros tratados. O mais conhecido deles, o de Tordesilhas, que contando com o aval da Igreja de Roma dividiu terras ainda desconhecidas entre Portugal e Espanha.
 A superioridade tecnológica, militar e política dos europeus, avalizada pela “benção” religiosa conseguiram impor, em maior ou menor grau, seus interesses de dominação sobre as populações nativas (por falta de um termo melhor) que eram encontradas em todo o mundo.
Durante meio milênio, seguindo trajetórias dos interesses das políticas econômicas dos países europeus e mais tarde norte-americanos, a América Latina sempre esteve submersa numa situação de dependência e submissão.  
No Brasil as tentativas para romper a estrutura de dependência começaram a partir da década de 20 do século XX, e contou com vários episódios em diferentes épocas históricas Nenhuma foi suficiente para viabilizar um desenvolvimento autônomo e auto- sustentado.
Assim a dependência brasileira se caracterizou por uma situação econômica social e política na qual a sociedade teve sua estrutura e funcionamento condicionada a necessidade e aos interesses dos países centrais, e também é bom não esquecer, das classes mais poderosas do próprio Brasil, que conseguiram exercer tanto uma dominação econômica como política.
A existência e a permanência da situação de dependência foram possíveis em ultima instancia, com o apoio e a colaboração interna de setores influentes da sociedade (militares, latifundiários, industriais, grandes conglomerados de comunicação entre outros). Com efeito, a situação sempre favoreceu uma parcela da sociedade. E essa parcela beneficiada que se articulou aos interesses alheios dominantes, pois a permanência  dessa situação lhe foi particularmente cômoda e conveniente.
De uma visão brasileira e latino-americana e possível identificar sinteticamente três grandes fases de dependência.
a)          Os três primeiros séculos, que compreendem o período colonial brasileiro e latino-americano tinham uma Europa comercial e manufatureira que necessitava principalmente de metais preciosos (ouro e prata) e produtos extrativos e agrícolas tropicais que não eram possíveis produzir nas suas terras. A ação dos países europeus, neste período orientou-se para a obtenção desses produtos.
b)          A emancipação política do Brasil (1822) ocorreu quando a Europa ingressava na era da 1ª Revolução Industrial liderada pela Inglaterra, com isto durante todo o século XIX tivemos uma Europa capitalista industrial que necessitava de matérias-primas para suas indústrias, de produtos agrícolas para suas populações urbanas e de mercados, esses em menor grau, para seus produtos industrializados. O Brasil mais uma vez foi articulado em função desses novos interesses dos países europeus.  
c)            A partir da Primeira Grande Guerra Mundial (1914-1918) e com a Segunda fase da Revolução industrial, os Estados Unidos da América assume a liderança do Mundo. O Brasil e todos os países da América latina foram articulados em função do novo centro de poder mundial em emergência, ao qual se vinculou de forma dependente e em cuja constelação de interesses se encontra até hoje. Principalmente na Segunda metade do século XX, pois os centros hegemônicos do Capitalismo (EUA e Europa) necessitam de mercados para seus capitais excedentes, suas tecnologias e seus produtos industrializados. Em troca e em menor grau necessitam de matérias-primas, produtos agrícolas e alguns produtos industrializados, geralmente de baixa tecnologia que são obtidos nos países periféricos (China em especial).
A partir da década de 1990 o Brasil apostou todas as suas fichas na modernização conservadora, supostamente virtuosa da desregulação, da concorrência e da globalização financeira internacional. Esta pseudo modernização geraria uma nova dinâmica na economia nacional, favorecendo o surgimento de um “novo Renascimento”. Acreditava-se, ou fingia-se acreditar, que esta nova era de avanços da razão e da técnica, só traria benefícios para o país.
Assim para o Brasil ser absolutamente moderno bastava integrar-se, o mais rapidamente a esta economia internacional. Com isso se consolidou a abertura comercial e financeira indiscriminadamente iniciada na década de 1990 e ainda em marcha. Com isso dispensaram a constituição de um projeto de desenvolvimento ou de políticas setoriais e de defesa da produção e do emprego nacionais.
Defender empregos, exigir melhores salários, revoltar-se contra os ganhos vergonhosos do sistema financeiro (leia-se donos de bancos e financeiras internacionais) passou a ser visto como atitudes extremamente anti-modernas de grupos corporativos e radicais.
O grande carro chefe dos últimos governos é a manutenção de níveis inflacionários mais baixo do que as décadas anteriores, esquecem-se de que os juros pagos pelos brasileiros ainda são um dos mais altos do mundo. Isso não se comenta, prefere-se comparar estes índices com de décadas passadas, como se não se pudessem adotar políticas que limitem os ganhos dos mercados de capitais, este o deus intocável.
Foi com estes vínculos externos que a economia brasileira cumpriu em menor ou maior grau, e em diferentes épocas da historia mundial uma função de submissão e subordinação em relação aos grandes centros dominantes.
O inicio do século XXI poderá trazer uma nova alternativa para as economias subdesenvolvidas, mas para que isto aconteça é preciso que se encontre formas de resistir ao avassalador interesse de exploração dos países centrais, vindos agora não só  por mecanismos comerciais, políticos e militares como em épocas passadas, mas, e muito especialmente, via especulação dos “bits”.
Mais do que em épocas passadas as estratégias políticas deverão estar vinculadas a um processo de desenvolvimento endógeno que vise acima de tudo os interesses da população de cada região/país,e não por imposição dos interesses externos. Mas isso depende de uma retomada política efetivamente social-democrata, o que parece cada fez mais longe dos políticos brasileiros.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012


LIÇÃO DE JOVENS

Jefferson Marçal da Rocha
Professor da Unipampa

Tenho minhas dúvidas se a geração atual é menos consciente e politizada do que as gerações passadas, como muitos acreditam. No Brasil, seguindo um pouco o que se via no resto do mundo, tivemos uma geração rebelde sem causa nos anos de 1960 em que drogas, sexo livre e rock roll eram a principal bandeira, tivemos uma geração oprimida pela ditadura nos anos 1970, em que as músicas do Chico, Gil, Belchior, Raul entre outros representam a vitória da “inteligência jovem” contra uma opressão burra e velha (Em uma entrevista Chico Buarque revelou que suas músicas jamais passariam pela censura militar se houvessem na época entre os censores, “pessoas com um pouquinho de inteligência”), um geração apática nos anos 1980, pois estes eram os nascidos numa época em que a ditadura militar parecia ser a única opção, tivemos também os cara pintadas que elegeram e depuseram um presidente que os enganou por pouco tempo nos anos 1990. E agora temos que geração?
Desconfio que seja uma geração “moderna” no sentido “lato” da palavra, não este modernismo “careta”, “americanizado”, “clean”, “pasteurizado”, “de griff” dos shoppings; falo de uma outra modernidade: de uma gente bonita, sem preconceitos, sem amarras no passado, que admite muitas “tribos”, que escuta, fala e compreende as diferenças. Gente sem rancor, sem mágoas e pronta para construir um mundo mais apto a convivência de “todos” os humanos.
“Gurizada” que não quer mais os velhos conceitos, as velhas formas de se viver, gente que usa brinco, que pinta o cabelo que usa os “tal” “pircieng” (no umbigo também!) e não tá nem aí. Mas nem por isso deixa de ouvir boa música, conhecer poetas clássicos, admirar o céu estrelado, se encantar com o por do sol, e principalmente respeitar o seu semelhante.  
Mas ao contrário do que muitos pensam essa também é uma juventude consciente de seus deveres, preocupada com o planeta, com as injustiças, com os preconceitos, com as tiranias... Quem dúvida é só prestar mais atenção nos movimentos sociais europeus em que os jovens, Los indignados, foram para as praças não reivindicar melhores salários, ou empregos, foram às ruas protestar contra o sistema capitalista de produção de riquezas para uma minoria da elite financeira e industrial e a exclusão social dos trabalhadores, dos ganhos indecentes desta riqueza.
O movimento dos los indignados surgiu em 2011 na Espanha, e se tornou uma lufada de ar fresco em um mundo que cheira a podre. Expôs nas redes sociais o que muitos pensam: que os bancos e os governos criaram a crise; que as pessoas sofrem com ela; que os políticos apenas representam a si mesmos; que os meios de comunicação estão condicionados; que não existem vias para que o protesto social se traduza em verdadeiras mudanças, porque na política tudo está amarrado e bem amarrado por conchavos e corrupção; para que as mesmas pessoas de sempre continuem cobrando e as mesmas pagando. Isto tudo de forma pacífica, a não ser pelas ações policiais despreparadas e que resultaram em mais simpatizantes da causa dos Los indignados.
É Uma juventude de paz, com posturas ambientalmente corretas, gente que quer tempo para assuntos da alma, quer tempo para fazer novas amizades, conversar sobre a vida, curtir as ruas, namorar, sentir o frescor das árvores, ouvir e dizer “Ois”. Gente que sabe o seu lugar no planeta, e quer preserva-lo. Estes “jovens” não querem as velhas formas de se viver dos “jovens de ontem”, esta em que prepondera consumismo, a breguise de roupas de marca, sanduíches com gosto de plástico dos Mac’ Donald, entre outras caretices impostas pelas convenções  hollyudianas.
Mas é claro que esta “teoria” é só uma suposição, mas surgiu ao ouvir uma declaração de um sábio (brasileiro sim!) de 16 anos, talvez o maior representante desta geração, que a pouco ganhou uma olimpíada mundial de matemática no Japão, onde venceu mais de 300 concorrentes do resto do mundo (mas esse evento não foi transmitida ao vivo pela Globo, afinal não interessava, pois não tinham papos “bestas” do “Big Brothers” e nem violência explicita como os UFCs).
Este jovem/grande sábio ao ser interrogado sobre o que queria ser futuro (Em inglês, diga-se de passagem) lançou essa (em inglês também): Eu quero ser rico, muito rico, mais rico que o Bill Gates. Mas para que você quer tanto dinheiro, voltou à carga o entrevistador. E ele retrucou com sabiência: Sabe lá onde moro? No Brasil, todo mundo quer ter carro. Ter um carro é o objetivo de todos os jovens, por isso as ruas estão cheias, o ar poluído. É um barulho infernal. Mas eu não quero carro, eu ando de ônibus, de bike, caminhando, e é por isso mesmo que eu quero ser rico, só para ter o poder de comprar o carro que quiser, uma Ferrari, duas... Mas ter o prazer ainda maior de não comprar. Por que sei que isso não é legal pra mim, nem pra você, nem para os que estarão aqui no futuro.
Desconfio que os adultos devam começar a ouvir mais os jovens. O futuro do planeta talvez dependa disso.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012


Por que o ruim prospera?


Jefferson Marçal da Rocha
Professor da Unipampa

O Big-Brother, mesmo para quem não assiste, é um fenômeno social passível de reflexão. Entender como um programa tão limitado cultura, ética, moral e intelectualmente faz tanto sucesso, especialmente entre os jovens, talvez nos faça compreender que tipo de sociedade vivemos. Pois não são apenas cidadãos das classes sociais menos favorecidas, carentes de outros tipos de lazer, que se interessam por este tipo de “cultura” jovens da classe média, socialates frequentadoras de festinhas luxuosas, jovens universitários, entre outros também comentam sobre as asneiras propiciadas por este “laboratório de gente sem nada a dizer”. Neste contexto me parece que antes de condenarmos que a expectativa de lucros esta acima de qualquer senso moral, deve-se avaliar a própria sociedade do século XXI. Uma época em que a informática e adjacentes proporcionaram um mundo sem fronteiras, onde as informações giram de forma exponencial e instantânea. Mas isso esta servindo exatamente para que? Vivemos em um mundo mais adequado a convivência humana do que á cem anos atrás? A capacidade de reflexão dos jovens de hoje são mais coerentes com os das gerações anteriores? Para onde se esta sendo conduzida esta sociedade? Para o sociólogo Zygmunt Bauman um dos pensadores contemporâneos mais lúcidos, a ética na sociedade de consumo é caracterizada por um aprendizado rápido e de imediato esquecimento, isto faz com que os valores desta sociedade também se constituam de uma liquidez fluídica cada vez mais débil. No início do século XX onde os artistas apenas queriam fazer arte e não só “aparecer na mídia”, os intelectuais ocupavam um lugar de destaque na expansão de ideias e ideais, por conta disso as conferências de Einstein eram tão disputadas como as de shows pops nos dias de hoje. No Brasil a segunda edição de Os Sertões de Euclides da Cunha foi disputado como ingresso de show de rock nos dias de hoje. O que se perdeu de lá para cá? Uma das respostas deve-se ao desprestigio de leitura. É lamentável que a maioria dos jovens brasileiros não ocupem suas horas vagas com bons livros. Os motivos para não ler são as mais estapafúrdios, especialmente os que dizem que no Brasil os livros são muito caros. Estes são os mesmos que compram para seus filhos tênis de griffe de centenas de reais e televisões com hiper polegadas para assistirem cenas de gosto moral condenável. Ler é tão ou mais barato que uma pizza, e dura para toda à vida na mente, no coração e na alma. Instigar aos jovens a leitura talvez seja um dos caminhos para resolver um dos maiores males da sociedade: o excessivo valor do “ter” em contraposição do “ser”. Descobrir a emoção, a aventura e a vida que transbordam das páginas dos livros pode ser uma redescoberta de sua própria existência. Para o saudoso poeta Mario Quintana: “Analfabeto é aquele que sabe ler e não lê” eu acrescento: aquele que pode comprar livros e não compra é o mais pobre dos homens. Talvez a resposta para a questão do título seja esta: “só nas sociedades bárbaras o ruim próspera” e as consequências são sempre catastróficas. Pense nisso e desligue a TV.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A poesia e o "Anjo Malaquias"

Em 2006 comemorávamos os cem anos de um dos maiores poetas brasileiros, nascido em Alegrete numa noite fria de 31 de julho, Mario Quintana (Anjo Malaquias, segundo o Erico Veríssimo)que escolheu as palavras para retratar as angustias e os desafios da existência. Fazia poesia com tudo que via e ouvia, era capaz de filosofar com as mais profundas incertezas da alma (A vida é indivisível. Dize, Qual o sentido do calendário?) ou de coisas simples como a preguiça (Por causa tua, quantas más ações deixei de cometer!) ou ainda de temas insólitos como a morte (A morte é quando a gente pode, afinal, estar deitado de sapatos). Sua poesia não tem idade, nem sexo, nem ideologia, nem cor, só tem paixão. Contudo é preciso saber “ouvir” o nosso próprio coração para entendê-lo, o que todos são capazes. Lembro que neste ano um jovem acadêmico comentou que não gostava de poesia, pois não as entendia. Desafie-lhe a ler um dos livros do Quintana (O aprendiz de feiticeiro), mas antes salientei que ele deveria se deixar levar pelos olhos da alma, usufruir das batidas do coração em sintonia com a natureza do silêncio. O tempo passou. Esqueci-me deste jovem. Quando então o não mais jovem acadêmico, mas agora um jovem profissional, reapareceu (agora já com vários anos de poesia) me chamou e disse:- Entendi professor! Entendi! Sem saber muito bem do que ele estava se referindo, estendi o olhar, e ele disse-me, agora pausada e poeticamente outra pérola do Anjo Malaquias: “Teus poemas, não os dates nunca...as almas não entendem disso”. Não sei mais por onde andará “aquele que não entendia de poesia”, mas certamente andará poetizando quintanares por ai. Para entender poesia têm que ser também um pouquinho poeta, um pouquinho sonhador e amar incondicionalmente a  existência humana. Bem, se for Anjo como o Mario não precisa de  nada disso, basta respirar.  

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

AS IDEOLOGIAS E POLITICAS ECONÔMICAS DIANTE DA PROBLEMÁTICA AMBIENTAL

A preocupação básica das Ciências Econômicas é dar aos recursos[1] sua melhor utilização, atendendo aos objetivos primários da sociedade como um todo melhorando a qualidade de vida dos seus cidadãos.
Conforme Ely (1990, p. 79):
Problemas Econômicos são problemas de alocação de recursos escassos nos seus usos alternativos para maximizar o bem-estar social. Essa afirmação parece um tanto trivial, mas permitirá estabelecer o ponto de partida para discussões sobre o meio ambiente, como um recurso econômico.
Sendo assim, os problemas ambientais fazem parte do problema econômico geral de alocação e distribuição dos recursos. Os efeitos da poluição e o impacto ambiental sobre o bem-estar social em diferentes situações devem ser tratados conjuntamente na busca por melhoria do  bem-estar.
Conforme Moura (2003, p. 1): “A abordagem atual do tema “Meio Ambiente” leva em conta que os recursos naturais são limitados (finitos e frequentemente escassos) e, portanto, o seu uso deve ser feito de maneira sustentável, ou seja, com economia”.
Os homens com o intuito de satisfazer estas necessidades que são ilimitadas, produziram ao longo dos anos, quantidades excessivas de resíduos, que vão além da capacidade de absorção da natureza, causando a degradação irreversível do meio ambiente (ELY, 1990).
Diante disso, surge o conceito econômico do meio ambiente que não é somente produzir, alocando recursos escassos, mas também, preocupar-se com a forma de utilização destes recursos de maneira a aperfeiçoar os materiais envolvidos nos processos produtivos, bem como minimizar a degradação dos recursos naturais e a deteriorização da qualidade do meio ambiente.
As escolas e as ideologias
Desde o final da década de 1960, um número crescente de economistas vem se interessando pela questão ambiental e ecológica. Uma expressiva literatura da denominada economia ambiental, desde então, vem sendo produzida, reestruturando as teorias econômicas já existentes, adaptando-as aos problemas atuais do meio ambiente. Abaixo as principais correntes que têm instigado as discussões sobra à problemática ambiental, no âmbito da ciência econômica nas últimas décadas:
Escola Pessimista
Esta escola é conhecida em inglês por Doomdey School, é comparada com a imagem do quadro do “juízo final”. O pensamento dessa escola pode ser compreendido pelo seu próprio pessimismo, ou seja, os seguidores colocam o problema da degradação ambiental como sendo sem solução; argumentam que é muito tarde para interromper o processo que o próprio homem traçou. Para eles, o futuro será o fim da raça humana por meio da superpopulação, da subnutrição, da fome e das doenças.
Outros integrantes da Escola Pessimista são alguns cientistas naturais que prevêem mudanças de temperatura da Terra como um resultado da acumulação de dióxido de carbono na atmosfera em conseqüência do degelo glacial e outros desastres de grandes proporções[2].
O mérito desta escola é a divulgação de uma série de relatórios, entre os quais, de expressiva repercussão mundial, o do Clube de Roma[3] e o estudo de Dennis L. Meadows e um grupo de pesquisadores intitulado “Limites do Crescimento” relatório para o Clube de Roma sobre o dilema da humanidade frente a finitude dos recursos naturais.
Os pensadores desta escola conseguiram formar mundialmente uma maior conscientização, não só do mundo científico, mas também sensibilizaram os governos e as instituições internacionais, como a ONU, que no Congresso dos Direitos Humanos e do Meio Ambiente, em Estocolmo em 1972 criou o Programa do Meio Ambiente das Nações Unidas (UNEP), com sede em Nairobi, no Kenya, hoje um dos órgãos internacionais mais ativos em relação à problemática ambiental.
Conforme Ely (1990), no entanto, é preciso reconhecer que existe uma evidência histórica acumulada de que o crescimento populacional nas nações industrializadas tem, se não estacionado, diminuído apreciavelmente. Neste sentido a visão apocalíptica do futuro deveria ser rejeitada. Além do mais, se realmente se acredita num futuro sem esperanças, não se pode esperar nenhum esforço para melhorar o bem-estar social presente e tampouco futuro. O que não condiz com a história da humanidade, que de alguma forma ou outra tem se mantido no planeta por mais de 4 mil anos.
Escola Minimalista
Essa escola apresenta um pensamento totalmente contrário ao da Escola Pessimista, pois seus adeptos colocam que o problema da deterioração do meio ambiente é um problema menor quando comparado com os problemas contemporâneos da sociedade, tais como: pobreza, miséria, os direitos civis e a integração educacional, dentre outros.
Os seguidores dessa escola, afirmam que os líderes políticos advogam uma melhoria ambiental, porque estão desviando a atenção do público pelas suas falhas em resolver problemas prioritários e crucialmente mais sérios.
No entanto, tais seguidores esqueceram que uma maior atenção para com a questão ambiental não significa negligenciar outros problemas sociais, ao contrário, a melhoria da qualidade de vida pressupõe uma melhoria na qualidade ambiental. A sociedade que zela por uma melhoria na qualidade do seu meio ambiente, advoga intrinsecamente o desenvolvimento integral de suas faculdades psíquicas, sociais e biológicas, buscando também combater a pobreza, a miséria e as desigualdades sociais e econômicas.
Escola Coletivista (Socialista)
Esta escola explica a deterioração da qualidade ambiental como sendo a consequência inevitável da exploração capitalista. Para essa escola, a resolução dos problemas ambientais consiste em adotar a política do planejamento central. Sugerindo que a livre iniciativa de mercado e o incentivo ao lucro devam ser substituídos pelo planejamento estatal. Os problemas ambientais desapareceriam sob a tutela, apropriação e administração dos recursos pelo Estado.
Porém, os países de planejamento central, ditos socialistas, como exemplo mais concreto a União Soviética, confrontam-se com problemas de poluição em graus tão sérios quanto os problemas dos países capitalistas.
Segundo Ely (1990, p. 74):
A experiência histórica dá fortes evidências de que a questão ambiental não vai ser resolvida com uma disputa ideológica e de lideranças sobre o mundo. Ambos os sistemas dão primazia ao uso dos recursos para atender prioridades de segurança nacional, e a poluição encontra campo aberto para deteriorar, em proporções crescentes, o meio ambiente.
Portanto, a questão ambiental deve harmonizar a função política e a econômica que adota sistemas de produção e consumo contribuindo para uma melhoria ambiental. Não é preciso ser capitalista ou socialista, pois a organização estável de ecossistemas está baseada em regras claras e dispensa qualquer concepção ideológica.
Escola de Crescimento Zero
O grupo mais expressivo entre os adeptos ambientalistas está associado à Escola de Crescimento Zero. A tese dessa escola é de que a degradação ambiental é causada pelo aumento de consumo de bens, e é preciso conter o crescimento da população e, como consequência, o da produção. Para seus seguidores os recursos naturais são limitados e, portanto, o homem tem a obrigação de equacionar suas necessidades de acordo com a limitação da natureza a fim de manter o equilíbrio natural do ambiente, garantindo a sua própria sobrevivência.
Conforme Ely (1990), esses argumentos não são suficientes para manter o equilíbrio desejado, isto é, não é possível manter um crescimento econômico zero. O que o mundo necessita é de novas tecnologias e de novos comportamentos de consumo, de forma a amenizar os problemas de degradação ambiental.
É válido destacar que o crescimento econômico zero além de inviável é indesejável, ou seja, a humanidade não se desenvolve se não houver crescimento econômico. Os problemas relacionados ao meio ambiente devem ser solucionados com a busca de alternativas em relação ao progresso tecnológico de maneira a adequar os padrões de consumo à produção.
Além disso, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) capacita as economias nacionais a enfrentar os altos custos de despoluição que o modelo econômico de produzir - poluir - despoluir vem impondo.
Portanto, os problemas ambientais devem ser resolvidos pelo redimensionamento do crescimento econômico e o uso alternativo dos recursos na economia. Deve obedecer a critérios baseados na adequação do progresso tecnológico e do comportamento de consumo. Na verdade, o problema da questão ambiental não é só crescer economicamente, mas promover um progresso econômico sustentado. Assim este progresso deve estar focado numa mudança tecnológica e num padrão de consumo que tenha profundo respeito aos aspectos ecológicos que os ecossistemas exigem.
Em outras palavras é perfeitamente viável uma economia crescer a taxas compatíveis com sua realidade social sem que os equilíbrios dos ecossistemas sejam violentados pela poluição e ou degradação. Mas isso só se tornará realidade quando o sistema econômico estiver organizado em outros princípios, tais como satisfação das necessidades básicas dos cidadãos, participação e auto-suficiência dos indivíduos na política e um profundo respeito ecológico.
Escola de Austeridade
Essa escola segue quase os mesmo princípios da perspectiva ideológica da escola do crescimento zero. Para os seus seguidores, o declínio da qualidade ambiental é produzido pela excessiva e abusiva utilização dos recursos. Neste caso a austeridade seria a melhor solução, e a conservação dos recursos, só será possível com a diminuição da produção, do consumo e da poluição.
Os seguidores dessa escola sugerem que a sociedade deveria converter-se de uma sociedade de produtores de resíduos em uma sociedade de afinados poupadores. Sendo assim a proposta sugerida para evitar a degradação do meio ambiente se daria por meio da redução do consumo e da produção.
Escola de Prioridades Públicas
Os seguidores da Escola de Prioridades Públicas argumentam que se o meio ambiente não está sendo devidamente preservado, os culpados são os governos, que estão mais preocupados com os gastos relativos à defesa nacional, a exploração espacial, ao incentivo a grandes obras de infra-estrutura e a manutenção das elites políticas no poder e não investem na preservação dos recursos naturais de seus territórios. O governo, segundo tais seguidores, é o responsável pela preservação ambiental e para tal deveria re-alocar recursos financeiros para manter sua integridade e garantir a sua perpetuação, com a instituição de políticas públicas ambientais.


[1] “Termo geral aplicado, na Economia, para tudo aquilo que contribui para produzir bens e serviços disponíveis para o consumo” (ELY, 1990, p.79).
[2] “Garret (1976) aborda os famosos desastres naturais ocorridos no mundo” (ELY, 1990, p. 72).
[3] “Há vários relatórios que sustentam tal pensamento pessimista e preocupante e alertam para o grave problema da degradação ambiental no mundo. Destacam-se o relatório Founex (1971), de Meadows et al. (1972 a) e IUCN (1980)” (ELY, 1990, p. 72).